O Espaço da Literatura no Ensino Médio Técnico e Tecnológico: Horizontes Teóricos e Percursos Didáticos

Autores

Alessandra Cristina Valério
Instituto Federal do Paraná
Ana Maria de Fátima Leme Tarini
Instituto Federal do Paraná

Sinopse

Por que ler literatura? Por que estudar literatura? São questionamentos que nos lançam, amiúde, alunos, colegas de instituição, amigos, agências de fomento, gestores e governantes. Para que literatura? Por que agora? Apesar de celebrada como produto sofisticado de uma sociedade letrada e, ainda que possa parecer alternativo ou cult exibir-se com livros em mãos ou decorar redes sociais com citações literárias, a verdade é que escrever, ler ou estudar literatura parece sempre requerer um cabedal cada vez mais diversificado de justificativas, quanto mais obscuros, autoritários e utilitaristas se tornam os tempos que a abrigam. Para explicar sua existência, ao longo dos séculos, muitas foram as roupagens filosóficas, antropológicas e sociais com as quais a literatura foi revestida e, por meio das quais, pôde existir e ocupar lugar. De objeto de culto ao belo, elitista e sacralizada, à arma política na luta por equidade social ou agente potencial de humanização, artefato cultural ou de entretenimento, o fato é que a literatura parece resistir às intempéries das épocas e continuar respirando sob cada um desses invólucros. E, em tempos de medo e violência como os que vivemos, é imprescindível que a literatura exista em todos os seus sentidos, sobretudo, naqueles que se revestem de resistência, de alteridade e de multiplicidade, ainda que ela atue, afirma Javier Marías, ao citar Faulkner, como um palito de fósforo nos conscientizando cada vez mais sobre a escuridão que nos cerca.

É nesse intuito, o de acender pequenas chamas, que este livro apresenta uma coletânea organizada em duas partes que compreendem “Ensino de literatura” e “Estudos literários”. Os capítulos que compõem esta proposta foram produzidos pelos docentes de línguas do IFPR e refletem tanto suas práticas de ensino, quanto suas pesquisas no campo da literatura. A parte I traz o primeiro capítulo que divulga os resultados prévios alcançados durante o desenvolvimento do projeto de pesquisa intitulado “Literatura na Web: a produção de podcasts e booktubes no ensino de língua portuguesa e literatura no IFPR”. Essa pesquisa está sendo realizada nos campi Paranaguá e Colombo desde 2019 e possui como objetivo central a formação de leitores literários. Para tanto, a docente parte da práxis, ou seja, das condições materiais do ensino de língua portuguesa e busca compreender primeiramente o que os estudantes sabem a respeito dos gêneros digitais. Com essa informação em mãos, a autora propõe uma metodologia viável para o ensino de literatura no âmbito do Ensino Médio Integrado (EMI).

Segundo ela, as novas tecnologias e os gêneros textuais/literários que circulam nas redes sociais e plataformas de streaming nos mobilizam a repensar estratégias metodológicas, haja vista que o ponto de partida é a compreensão de que são objetos de ensino e aprendizagem cujo objetivo está focado na formação de leitores literários. E, devido a isso, torna-se salutar repensar as metodologias de ensino de literatura, no intuito de vislumbrar nos gêneros digitais uma oportunidade de conquista da atenção discente.

O segundo capítulo, “Ler e Escrever Caminham Juntos: o jornal colaborativo ‘O Clube’ e o incentivo à escrita literária”, é a apresentação de um projeto de extensão do Instituto Federal do Paraná, campus Pinhais. O jornal “O Clube” foi criado em 2019, com o objetivo de divulgar a agenda do projeto de extensão “Clube de Leitura” que já ocorria desde o ano anterior. Destaca-se que o formato era impresso, entretanto, com o isolamento social, o jornal passou a ser virtual, tornando-se, efetivamente, um jornal colaborativo; além de resenhas e textos de opinião, segundo as autoras, o jornal conta com uma seção dedicada à publicação de textos literários elaborados pelos próprios estudantes do campus. Dessa forma, este artigo tem como objetivo relatar a experiência obtida com a implantação do jornal, bem como discutir a relação entre leitura e escrita criativa, levando-se em consideração a importância da literatura na formação do sujeito. Isso poderá ser conhecido pela apresentação do jornal ‘O Clube’, impresso, e a experiência posterior na criação do blog para o jornal virtual, que descrevem a concepção da proposta de oficinas de escrita criativa para os estudantes e os resultados obtidos.

Nesta obra polifônica, não poderia faltar um capítulo que abordasse o ensino da literatura inglesa. Em “Os Textos Literários nas Aulas de Língua Inglesa: relato de uma prática com os Limeriques de Lear”, a ideia é mostrar uma possibilidade de trabalho com textos literários nas aulas de língua inglesa, pois há algumas inquietações em relação ao trabalho realizado nas nossas salas de aula de línguas, nos materiais didáticos, e especialmente como o professor tem se colocado diante desse questionamento. Segundo a autora, o objetivo é instigar o pensamento e a curiosidade para que o tema fique em evidência por sua relevância e pelas inúmeras possibilidades que o uso da literatura nos traz, tanto no que tange ao trabalho com as habilidades básicas da língua inglesa (ou seja, leitura, escrita, compreensão oral e conversação), como também às áreas de linguagem (ou seja, vocabulário, gramática e pronúncia). As razões do uso de textos literários em sala de aula de língua estrangeira são enfatizadas de modo a familiarizar o leitor sobre os critérios subjacentes para o uso de tais textos. Os benefícios de diferentes gêneros de literatura (ou seja, poesia, contos de ficção, drama e romance) trazidos ao ensino de línguas também recebem destaque, visto que o texto literário corrobora a formação de um sujeito cidadão com competência criativa, consciente social e culturalmente.

O artigo “Literatura para quem? Um olhar sobre a Ficção Brasileira do início do séc. XXI”, embora não seja uma prática de ensino, possibilita aos/ as docentes refletirem acerca da produção literária de destaque na pós-modernidade que normalmente aparece nas listas de vestibulares, ENEM etc. A pesquisa inicia um mapeamento dos dispositivos de legitimação, aos quais escritores e escritoras devem se submeter, para obter alguma notoriedade no segmento canônico da literatura brasileira. Embora o capítulo tenha sido elaborado em coautoria, optou-se por uma voz de pesquisadora/professora de Ensino Médio Técnico para abordar as rotas de projeção e consagração de alguns autores, as suas estratégias de inserção no mercado literário, as escolhas temáticas e as marcas de distinção de suas criações. Com a observação desta pesquisa, foi possível perceber que a apresentação de obras e autores contemporâneos em resenhas e críticas é, na maioria das vezes, chancelada pela indicação deles a prêmios literários ou pelas garantias de qualidade fiadas por um especialista em literatura ou crítico de renome. Com relação aos prêmios, além de serem meios de obtenção de divulgação e notoriedade para os escritores, também são as mais rentáveis do ponto de vista econômico. Isso porque podem proporcionar aos autores projeção nacional, possibilitando a dedicação exclusiva à escrita.

Na parte II do livro, compartilhamos artigos representativos das várias pesquisas que têm sido desenvolvidas por nossos docentes de literatura em diversos campi do IFPR. Para além das pesquisas que envolvem as práticas docentes, ou seja, o ensino-aprendizagem, os docentes dedicam-se ao enriquecimento das análises e das críticas que compõem o arcabouço dos estudos literários nacionais e internacionais. Os textos propõem discussões com temáticas em ebulição, sejam polêmicas ou dolorosas, essas feridas são ex- postas também na arte literária, que se não imita a vida, a retrata de diversas formas, inúmeras vezes.

O capítulo “A trajetória do Romance Histórico Paranaense: tradição, desconstrucionismo e mediação – algumas considerações” destaca que os diálogos entre história e ficção são motrizes para muitas discussões contemporâneas. Uma delas trata das possibilidades de a literatura de extração histórica trabalhar como meio à descolonização. A pesquisa apresentada neste capítulo busca averiguar se as narrativas de extração histórica paranaenses se comportam como elementos ativos no processo de descolonização epistêmica ou se ainda perpetuam noções com matizes colonizadas sobre a tônica escolhida.

Esse capítulo é um recorte do projeto doutoral da autora (em andamento), que investiga a trajetória do romance histórico paranaense, em relação ao seu desenvolvimento no Brasil e América Latina. Investiga a instalação do gênero no território americano, suas primeiras expressões em território paranaense e seu desenvolvimento até as produções contemporâneas. Para tanto, ela trata de questões pontuais presentes nos romances que ressignificam os processos colonizadores e de povoamento do Estado. As narrativas revelam a essência, as ideologias que as movem e os procedimentos escriturais que as edificaram.

O capítulo “A violência do racionalismo hegemônico e a perspectiva antropofágica do apocalipse ecológico em A História de Animal, de Indra Sinha”, nos aproxima da literatura hindu, tão pouco lida e comentada em nossas aulas de literatura. Muitos textos literários pós-coloniais se caracterizam pela abordagem da relação estabelecida, no passado e no presente, entre a Europa e suas ex-colônias, evidenciando a tensão e a fatura nada positiva entre elas. O romance abordado nesta análise problematiza mais do que o contato entre americanos e indianos, mas a ação predatória do ocidente sobre a Índia; uma ideologia que implicou em uma crise ecológica sem precedentes. Por essa razão, este trabalho pretende colocar em evidência a violência racionalista praticada pela hegemonia ocidental na/contra a cidade fictícia de Khaufpur, na Índia, e o modo como ela impactou negativamente a existência de entes humanos e não-humanos. Tem-se como objetivo, ainda, mostrar que, apesar disso, eles persistem subvertendo a tentativa de extinção a que foram submetidos por um apocalipse antropogênico. Para tanto, procede-se à pesquisa bibliográfica de trabalhos que analisam práticas de racismo ambiental, especialmente, nos países do sul global, e que têm como corpus o romance A História de Animal. O jovem protagonista relata as impressões e conflitos de sua própria vida e conflitos de outros, oriundos de um desastre químico ocorrido há duas décadas. Esse evento trágico descrito no romance ficcionaliza a tragédia de Bhopal, em dezembro de 1984, que foi caracterizada pelo vazamento de gás na fábrica de pesticidas de uma empresa americana que atuava naquele território. Uma tragédia criminosa que marcou a história de milhares de pessoas. Este texto é parte da pesquisa de doutorado da autora sobre a contestação do humanismo racionalista em textos literários pós-coloniais.

Dentre as temáticas com trato dolorido, no capítulo “Por Desejo, Por Amor ou Por Solidão, suicidam-se as mulheres-princesas, de Marina Colasanti”, a autora aborda o suicídio, um assunto ainda tabu em nossos dias, que urge ser discutido, lembrado e analisado. O suicídio é uma das questões fundamentais da nossa existência, pois se refere ao ato de tirar a própria vida ao se matar e, por isso, merece reflexão, já que cessar a própria vida pode ter justificativas nem sempre aceitáveis socialmente e nunca aceitáveis religiosamente (para os cristãos), talvez porque põe em xeque a ideia de livre arbítrio. O texto inicia por conceituar o que é suicídio e segue com um referencial bibliográfico que embasa a construção textual sobre o tema e assinala algumas possibilidades e/ou justificativas para que um ser humano acabe intencionalmente com sua existência. O percurso teórico que a autora segue a conduz a duas hipóteses teóricas para auxiliar na compreensão das razões deste ato e auxiliam na interpretação dos contos escolhidos: a liberdade e a libertação.

O capítulo “Vozes do Povo em Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa”, esclarece que o livro é composto por vinte e um contos curtos que apontam para uma arquitetura estratégica, um verdadeiro projeto rosiano, tópico ainda não devidamente explorado pela fortuna crítica. Com destaque, a crítica tem olhado para os contos inicial e final, As margens da alegria e Os cimos, nos quais o protagonista é um mesmo menino em viagem a uma cidade em construção, e o conto mediano, que tem por título O espelho. No Banco de Dados Bibliográficos da Universidade de São Paulo (USP) consta que a produção de Guimarães Rosa é uma das mais analisadas do Brasil, dos quase 5 mil registros, que incluem teses, dissertações, artigos jornalísticos e acadêmicos, livros, prefácios e trabalhos apresentados em eventos. Nesses dados consta que pouco mais de 600 se referem a Primeiras Estórias, o que aponta grande hiato crítico sobre a obra. Diante dessa constatação, a proposta do autor é contribuir com a crítica de Rosa e do texto referido, portanto propõe analisar as vozes do povo presentes na obra, considerando as várias possibilidades na definição do termo “povo”, seja como “coletividade”, “público”, “comunidade”, “popular”, questionando como essas vozes se articulam à narrativa e a seus elementos (personagens, espaço, narrador, tempo), valores e visões.

Das vozes das posições-sujeito dos textos rosianos, partimos para as vozes femininas. O capítulo “A mulher não vence a Odisseia” mergulha na temática da violência contra a mulher também presente ou representada na literatura, visto que viver com medo da violência urbana é uma realidade que ninguém compreende melhor do que as mulheres. A insegurança acompanha a todas, em todos os momentos, e esse sentimento não é “mimimi”, como pode ser denominado por algumas pessoas que invisibilizam a luta por equidade travada pelas mulheres. Os autores trazem dados do Atlas da Violência 2020, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), visando apontar a relevância de falar a respeito da violência que atinge as mulheres de nosso país.

De acordo com a autora e o autor, os pontos levantados podem e devem fazer parte dos questionamentos do professor do Ensino Médio, tanto no ensino regular quanto no técnico. Docentes da área de Letras podem se utilizar da literatura para fomentar discussões e reflexões necessárias à sociedade, essa seria uma das formas de fazer com que o discente se sinta confortável com a literatura. Além disso, poderia levá-lo a entender que a leitura é uma forma de se encontrar e se conectar com o mundo. A escolha de A Odisseia de Penélope, de Margaret Atwood (2005), é justamente porque se aproxima da epopeia grega Odisseia, de Homero, entretanto, é outra perspectiva de construção de personagem, com as quais as mulheres/meninas/ adolescentes podem se sentir representadas. Como a leitora e o leitor poderão perceber, os capítulos deste livro objetivam divulgar as pesquisas científicas dos mestrados e doutorados dos participantes, assim como as práticas docentes no ensino de literatura nas salas de aulas do IFPR. Nós docentes vivemos neste limiar entre teoria e prática. Nossas abordagens didáticas refletem o escopo teórico que embasam nossas análises. E, com este trabalho, esperamos estar contribuindo com as discussões que permeiam e movimentam as pesquisas na disciplina de literatura.

 

Alessandra Cristina Valério

Ana Maria de Fátima Leme Tarini

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Publicado

26 August 2022